O Canto que Antecede o Dia
Ainda era noite quando o pássaro nasceu do silêncio.
Trazia nas penas o brilho de um sol que ninguém via,
como se guardasse, na memória antiga das asas,
a promessa de um amanhã que teimava em não chegar.
As árvores, adormecidas em sonhos úmidos,
se encolhiam diante da escuridão espessa,
mas ele, teimoso como quem conhece o invisível,
ergueu o bico para o céu que ainda não tinha cor.
Cantar, naquela hora, era quase um ato proibido.
E mesmo assim ele cantou.
Cantou como quem pressente o milagre antes do milagre,
como quem toca a luz mesmo quando ela
ainda rasteja escondida entre as sombras.
E cada nota que deixava no ar
abria uma fenda pequena no escuro,
até que a aurora, finalmente vencida,
rasgou o horizonte com seus dedos de ouro.
Porque a fé — essa ave incansável —
sempre canta primeiro.
Canta quando ninguém acredita,
canta quando o mundo cala,
canta quando a madrugada parece eterna.
Canta…
porque sabe que a luz,
mais cedo ou mais tarde,
também aprende a voar.
Luciana Oliveira